Legibilidade e capacidades estatais
o caso da Consulta Popular para Povos e Comunidades Tradicionais na reparação socioeconômica de Brumadinho/MG
DOI:
https://doi.org/10.5281/zenodo.20850352Palavras-chave:
Povos e Comunidades Tradicionais, Reparação Brumadinho, Institucionalização simbólica, Legibilidade, Capacidades estataisResumo
Este trabalho analisa as etapas participativas prévias à implementação da reparação socioeconômica do rompimento das barragens da Vale S.A. em Brumadinho e demais municípios atingidos, enfocando a transição entre a consulta popular para a população em geral e a Consulta Popular para Povos e Comunidades Tradicionais (CP-PCTs). Desenvolve-se a pesquisa por meio de análise documental, entrevistas semiestruturadas com atores-chave, observação participante e mobilização central dos conceitos de legibilidade, capacidades estatais de tipo cognitivo e institucionalização simbólica. Identifica-se que a primeira experiência é realizada de maneira uniformizante e padronizadora, desconsiderando as dificuldades de acesso à ferramenta digital criada, além das formas de organização social e tomada de decisão, essencialmente coletivas, dos PCTs. Diante disso, as coletividades tradicionais passaram a expor suas insatisfações, por meio de interações socioestatais não apenas de caráter conflitivo, mas também dialógico. Verificou-se que a mobilização desses grupos resultou na institucionalização simbólica de suas categorias e seus direitos, fazendo com que atores institucionais relevantes passassem a “ver como um movimento social”. Disso resultou a criação da CP-PCTs, não prevista inicialmente, que envolveu a adequação de fluxos e etapas com alterações significativas em termos de método, formato e prazos, além de ter sido complementada com etapas adicionais que aprofundaram as possibilidades de incidência das coletividades tradicionais e abriram espaço para que os protocolos de consulta comunitários fossem absorvidos devidamente. Embora seja possível verificar avanços entre as experiências, persistem limitações, como a restrição de um projeto por comunidade, o teto orçamentário por iniciativa e a morosidade na execução das iniciativas.
Referências
ANELLI, Fernando Resende; BERNARDO, Renata Anício. Inovação democrática digital: um estudo de caso sobre a consulta popular no âmbito do acordo judicial de reparação do rompimento das barragens da Vale S.A. In: ENCONTRO INTERNACIONAL PARTICIPAÇÃO, DEMOCRACIA E POLÍTICAS PÚBLICAS, 5., 2022. Anais eletrônicos [...]. Natal: UFRN, 2022.
ANELLI, Fernando Resende. Do meramente consultivo à incidência direta: inovações democráticas, repertórios de interação e a inserção de Povos e Comunidades Tradicionais (PCTs) no processo de reparação socioeconômica do desastre-crime da Vale S.A. em Brumadinho (2019-2024). 2025. 196 f. Dissertação (Mestrado em Ciência Política) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2025. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/items/c6065e02-6a52-458d-9380-3ecb069b1f67. Acesso em: 18 maio 2026.
DIREITO, Denise do Carmo; KOGA, Natália; LICIO, Elaine Cristina. (Des)mobilização de capacidades na instrumentação de políticas: o caso do cadastro único para programas sociais. In: GOMIDE, Alexandre de Ávila; SILVA, Michelle Morais de Sá e; LEOPOLDI, Maria Antonieta (ed.). Desmonte e reconfiguração de políticas públicas (2016-2022). Brasília, DF: Ipea: INCT/PPED, 2023. p. 45-74. Disponível em: http://dx.doi.org/10.38116/978-65-5635-049-3/capitulo2. Acesso em: 14 maio 2026.
FLORIT, Luciano Félix. Dos conflitos ambientais à ética socioambiental: um olhar a partir dos povos e comunidades tradicionais. Desenvolvimento e Meio Ambiente, Curitiba, v. 52, 2019. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/made/article/view/59663. Acesso em: 29 nov. 2025.
GOMIDE, Alexandre de Ávila; PIRES, Roberto Rocha Coelho (org.). Capacidades estatais e democracia: arranjos institucionais de políticas públicas. Brasília: Ipea, 2014.
MELO, Tatiane Lúcia; MEDEIROS, Regina de Paula; TEIXEIRA, Rodrigo Corrêa. Quando o rio não VALE mais: o dilema de comunidades às margens do rio Paraopeba após o desastre em Brumadinho. Novos Cadernos NAEA, Belém, v. 25, n. 1, 2022. Disponível em: https://periodicos.ufpa.br/index.php/ncn/article/view/8796. Acesso em: 29 jan. 2025.
MINAS GERAIS. Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania – 2º Grau. Acordo Judicial para reparação integral relativa ao rompimento das barragens B-I, B-IV e B-IV-A / Córrego do Feijão. Belo Horizonte, 2021. Disponível em: https://www.mg.gov.br/pro-brumadinho/documento/acordo-judicial-de-reparacao. Acesso em: 24 jan. 2026.
OBSERVATÓRIO DE PROTOCOLOS COMUNITÁRIOS. Protocolos. [S.l.], 2026. Disponível em: https://observatorio.direitosocioambiental.org/protocolos/. Acesso em: 30 jan. 2025.
PASSOS, Anderson; QUIERATI, Luciana. Brumadinho 272: relato de um comandante dos bombeiros sobre as buscas e as vidas impactadas pelo desastre da barragem. Belo Horizonte: 11 Letras, 2023.
PIRES, Roberto Rocha Coelho; GOMIDE, Alexandre de Ávila. Governança e capacidades estatais: uma análise comparativa de programas federais. Revista de Sociologia e Política, Curitiba, v. 24, n. 58, p. 121-143, jun. 2016. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/rsp/article/view/47224. Acesso em: 14 maio 2026.
POLIGNANO, Marcus Vinicius; LEMOS, Rodrigo Silva. Rompimento da barragem da Vale em Brumadinho: impactos socioambientais na Bacia do Rio Paraopeba. Ciência e Cultura, São Paulo, v. 72, n. 2, p. 37-43, 2020.
PORTAL PRÓ-BRUMADINHO. Histórico do rompimento das barragens da Vale na Mina Córrego do Feijão. Belo Horizonte, 3 maio 2024. Disponível em: https://www.mg.gov.br/pro-brumadinho/pagina/historico-do-rompimento-das-barragens-da-vale-na-mina-corrego-do-feijao. Acesso em: 30 dez. 2025.
SCOTT, James C. Seeing like a state: how certain schemes to improve the human condition have failed. New Haven: Yale University Press, 1998.
SILVA, Breno Trindade. Povos e comunidades tradicionais: algumas considerações sobre processos políticos e ecológicos. Em Sociedade, Belo Horizonte, v. 4, n. 1, 2022. Disponível em: https://periodicos.pucminas.br/emsociedade/article/view/29531. Acesso em: 19 maio 2026.
SOUZA FILHO, Carlos Frederico Marés de et al. Jusdiversidade e protocolos comunitários. Curitiba: Cepedis, 2022. Disponível em: https://observatorio.direitosocioambiental.org/wp-content/uploads/2023/08/Jusdiversidade-e-protocolos-comunita%CC%81rios.pdf. Acesso em: 14 maio 2026.
SOUZA, Celina. Capacidade burocrática no Brasil e na Argentina: quando a política faz a diferença. Rio de Janeiro: Ipea, fev. 2015. (Texto para discussão, n. 2035). Disponível em: https://repositorio.ipea.gov.br/server/api/core/bitstreams/3863ac94-bb24-4eb9-bc9f-549c5445ab77/content. Acesso em: 14 maio 2026.
SZWAKO, José; GURZA LAVALLE, Adrian. "Seeing like a social movement": institucionalização simbólica e capacidades estatais cognitivas. Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, v. 38, n. 2, p. 411-434, maio/ago. 2019. Disponível em: https://www.scielo.br/j/nec/a/bdXzdjtkMqG8gCNnMNpCbGm/?format=html&lang=pt. Acesso em: 14 maio 2026.
VITORELLI, Edilson. El proceso de reparación colectiva de las grandes catástrofes. Ius Et Veritas, Lima, n. 68, p. 55-65, 2024. Disponível em: https://revistas.pucp.edu.pe/index.php/iusetveritas/article/view/29551. Acesso em: 14 maio 2026.
YIN, Robert K. Qualitative research from start to finish. New York: Guilford Press, 2011.
Downloads
Publicado
Como Citar
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2026 Fernando Resende Anelli

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License.





