Chamada para Dossiê v.4, n.2: Campo de públicas e a transição socioecológica em face da crise climática
Organizadores: Carolina Andion (UDESC); Edonilce da Rocha Barros (UNEB) ; Ricardo Carneiro (FJP).
Ao longo das últimas décadas, as mudanças climáticas avançaram exponencialmente para conformar, atualmente, uma crise de dimensões incomensuráveis para a humanidade. A apropriação da natureza pelo capital como fonte de recursos, acessados a baixos custos ou de forma livre, e escoadouro para os resíduos, rejeitos e assemelhados da produção e do consumo (Fraser, 2024) forjou um cenário de degradação ambiental onde se avolumam problemas como o declínio acelerado da biodiversidade, a agudização dos eventos climáticos sejam por ondas de calor ou chuvas intensas, além de períodos de seca em áreas já propensas à escassez de água,dentre outros que vem afetando constantemente diversos aspectos da vida humana. Diagnosticado como um problema complexo, multifatorial e transgeracional, o fenômeno tem provocado o acirramento das tensões e dos conflitos em torno dos recursos naturais e seus usos, com desdobramentos como o aprofundamento das desigualdades sociais e os deslocamentos humanos forçados, que acometem desproporcionalmente populações caracterizadas por condições de vulnerabilidade, desvestidas de condições materiais e políticas efetivas na defesa de seus interesses e direitos.
Nesse cenário, as mudanças climáticas revelam-se uma questão política-institucional não só de enfrentamento urgente, mas também de difícil resolução para os governos, mercados e sociedade civil em escala global. A despeito da assinatura de acordos internacionais e da realização de diversas conferências sobre o clima, a humanidade está longe de evitar a elevação da temperatura em curso no planeta e de reverter as previsões trágicas sobre seus múltiplos efeitos descritos em documentos como os relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Os últimos relatórios demonstram que as emissões globais de gases de efeito estufa continuam a aumentar historicamente e de maneira sistemática, com contribuições desiguais decorrentes dos usos insustentáveis de energia, no uso da terra, dos estilos de vida e dos padrões de consumo e produção entre países, regiões e entre indivíduos (IPCC, 2023). O aumento das ações de mitigação não foi suficiente para evitar que o aquecimento global aumente de 1,5 a 2,0 graus centígrados no século XXI. Com isso, observa-se uma progressiva perda de resiliência ecossistêmica e aumento de imprevisibilidade (Berkes & Folke, 2000), com impactos em múltiplas dimensões da vida no planeta tais como na disponibilidade de água e segurança alimentar, na saúde e bem-estar, nos deslocamentos e migrações e na biodiversidade. Tais processos são ainda mais desafiadores nos países do Sul Global que têm tido muitas dificuldades financeiras e institucionais de fazer face a esses efeitos.
As ações com vistas ao enfrentamento desses problemas robustos e multidimensionais, sejam elas de caráter mitigatório, focadas na redução da emissão de gases de efeito estufa, sejam de caráter adaptativo, direcionadas a lidar com os impactos socioambientais já observáveis e os futuros, têm se revelado claramente insuficientes. Observa-se então um grande gap entre as declarações e normas e as ações concretas colocadas em prática em âmbito local (Bulkeley, 2010). Soma-se a isso, a ampliação do negacionismo climático, que dificulta muitas vezes que essas questões sejam tomadas como centrais no debate e na ação públicos, tornando ainda mais difícil a coprodução de respostas e soluções eficazes e efetivas para uma nova ordem social e ambientalmente sustentável.
O quadro que se delineia, portanto, nada tem de trivial e exige pensarmos e colocarmos em prática mudanças para além das interações sociais, incluindo as transações com os meios de vida, tomando a natureza como sujeito de direito, não apenas como estoque de recursos, e superando a clivagem clássica entre experiência e natureza, já que somos seres na e da natureza (Dewey, 1915/2012). Diante desse quadro, alguns debates se tornam centrais como a questão da governança climática em âmbito global e também local (Burkeley, 2010), bem como a governança dos bens comuns e seus diversos regimes, para além da simples privatização dos recursos naturais, incluindo desde a análise institucional (Ostrom, 1990), passando por uma perspectiva co-evolutiva e produtora de uma governança adaptativa (Berkes & Folke, 2000; Folke et al, 2005; Armitage et al, 2009) até chegar na discussão mais recente dos Comuns (Dardot e Laval, 2017).
Trata-se também de considerar os diferentes arranjos, interações socioestatais e ecossistemas que promovem ações coletivas e públicas para transição, levando em conta as inovações sociais produzidas. Ressalta-se aqui a importância da compreensão da interação entre esses ecossistemas de inovações sociais e as políticas e arenas públicas e seus efeitos na ampliação da democracia e na promoção de novas interações, padrões de produção e consumo e transações com o meio-ambiente (Andion, 2023).
A discussão envolve também a concepção de uma ciência interdisciplinar e engajada que promova experimentações, teorizações e práticas passíveis de produzir respostas aos desafios colocados do local ao global. Diante disto, consideramos que o Campo de Públicas enquanto campo e movimento científico, técnico e político interdisciplinar que visa promover o interesse público no Brasil tem um papel central na coprodução de conhecimento e de novas práticas sociais para a transição socioecológica (Van Neste; Melé & Larrue, 2024).
A presente chamada busca, então, promover discussões referentes às tendências, desafios, experimentações e inovações promovidas no campo de públicas (acadêmico e prático) e que tenham, por objeto, o fenômeno das mudanças climáticas, as políticas e ações públicas e coletivas com vistas a seu enfrentamento, nas diferentes escalas territoriais – do local ao global, visando a transição socioecológica. Estimula-se a submissão de artigos baseados em diversas perspectivas ontológicas, epistemológicas, teóricas e metodológicas compatíveis e oriundas das disciplinas congêneres do campo de públicas e de áreas afins. Em particular, nos interessa discutir dinâmicas formais e informais que envolvam articulações intersetoriais e relações socioestatais em resposta aos efeitos da crise climática, incidindo na ação pública e nas políticas públicas, tais como:
- Políticas, programas e ações públicas de gestão climática em âmbito municipal, estadual e federal, seus desafios, alcances e limites;
- Articulações intersetoriais e relações socioestatais envolvendo experiências de governança pública face à crise climática;
- Efeitos da crise climática sobre a governança urbana e respostas coproduzidas;
- Experimentações democráticas e promotoras de inovações socioambientais que focalizem a transição socioecológica;
- Experiências de mitigação e adaptação e seus efeitos e desafios em diferentes regiões e realidades no Brasil;
- Governança de bens comuns, governança adaptativa e comuns;
- Campo de públicas, transição socioecológica e crise climática
Prazo para submissão de trabalhos: 05 de setembro de 2025.
Referências
ANDION, Carolina. Social innovation, experimentalism, and public governance: an ethnographical approach to study public arenas in the city. Brazilian Administration Review, Maringá, v. 20, n. 2, e220124, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1807-7692bar2023220124. Acesso em: 31 jul. 2025.
ARMITAGE, Derek; BERKES, Fikret; DOUBLEDAY, Nancy (ed.). Adaptive co-management: collaboration, learning and multi-level governance. Vancouver: UBC Press, 2007. Disponível em: https://www.ubcpress.ca/asset/9067/1/9780774813839.pdf. Acesso em: 31 jul. 2025.
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BULKELEY, Harriet. Cities and the governing of climate change. Annual Review of Environment and Resources, San Mateo, v. 35, n. 1, p. 229-253, 2010.
DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. Comum: ensaio sobre a revolução do século XXI. São Paulo: Boitempo, 2017.
DEWEY, John. Expérience et nature. Paris: Galimard, 1925.
FOLKE, Carl; HAHN, Thomas; OLSSON, Per; NORBERG, Jon. Adaptative governance of socio-ecological systems. Annual Review of Environmental Ressource, San Mateo, v. 30, p. 441-473, 2005.
FRASER, Nancy. Capitalismo canibal: como nosso sistema está devorando a nossa democracia, o cuidado e o planeta e o que podemos fazer a respeito disso. São Paulo: Autonomia Literária, 2024.
HOLLING; BERKES, Fikret; FOLKE, Carl. Science sustainability and resource management. In: BERKES, Fikret; FOLKE, Carl (ed.). Linking social and ecological systems. Cambridge: Cambridge University Press, 1998. p. 342-362.
OSTROM, Elinor. Governing the commons: the evolution of institutions for collective action. Cambridge: Cambridge University Press, 1990.
STEELMAN, Toddi. Adaptative governance. In: ANSELL, Christopher; TORFING, Jacob (ed.). Theories of governance. Cheltenham: Edgard Elgar Publishing, 2016.
VAN NESTE, Sophie; MELE, Patrice; LARRUE, Corinne. Transitions socioécologiques et milieux de vie: entre expérimentation, politisation et institutionnalisation. Montreal: Presses de la Université de Montreal, 2024.




